o amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato
o amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço
amor comeu meus cartões de visita, o amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome
o amor comeu minhas roupas, meus lenços e minhas camisas,
o amor comeu metros e metros de gravatas
o amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus
o amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos
o amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão
comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte
(João Cabral de Melo Neto)
quando eu ouço as canções que eu fiz pra você
o tempo vem dizer
o que o tempo deve ser
o espaço em que agora o meu passo chegar
vai dizer:
- amanhã já é outro lugar
eu juro que é melhor enfim
eu juro vai ser melhor assim
eu já não ligo mais para você
hoje não canto
não falo, não saio, não durmo bem
os tênues fios que me ligam a você estão hoje em prantos
e no entanto arriscamos tanto nos envolver
desligo você
nus, deslizamos
pra que te esquecer
se o amor é tanto?
existo em você
por louco engano
(Graveola e o Lixo Polifônico)
la tierra giró para acercarnos,
giró sobre sí misma y en nosotros,
hasta juntarnos por fin en este sueño,
como fue escrito en el simposio.
pasaron noches, nieves y solsticios;
pasó el tiempo en minutos y milenios.
una carreta que iba para nínive
llegó a Nebraska.
un gallo cantó lejos del mundo,
en la previda a menos mil de nuestros padres.
la tierra giró musicalmente
llevándonos a bordo;
no cesó de girar un solo instante,
como si tanto amor, tanto milagro
sólo fuera un adagio hace mucho ya escrito
entre las partituras del simposio.
(Eugenio Montejo)
e tudo se resolve (algo que já estava resolvido e ainda não se resolveu). mas conseguimos fazer isso sozinho. dou minha cara a tapas pra quem provar que isso é fácil. mas nós conseguimos. tentamos deixar tudo com setembro. setembro nunca me trouxe coisas boas. o mais engraçado é que setembro começou como há muito um mês não começava: depois de um final de semana intenso, conversas em bar, um pouco de cerveja entre um beijo e outro, um beliscão daqui, outro tapa dali. mas aos poucos tudo volta a ser como antes: a saudade, a incerteza e a rejeição do desejo pelo outro, essa coisa de não querer puxar assunto e quando fazemos parece ter sido a ideia mais idiota que alguém pôde ter. as vezes, mesmo não querendo a gente sempre se esbarra: “inútil como criança buscando refúgio atrás das cortinas. inútil (…), natural se esbarrar num show, no teatro, no cinema. nossos gostos eram muito parecidos, o que fortalece o acaso”. o que nos resta é tentar resolver isso, comigo mesmo, sem lembrar dos finais de semana, dos finais de tarde jutos, das pernas entrelaçadas, das risadas, das piadas sem graça, das experiencias na cozinha, dos filmes, das noites sem dormir, das noites em que o álcool tomava conta, das briguinhas que não eram brigas, dos roxos, mordidas, marcas, dos vícios, das musicas, de tudo. é, mas nós conseguimos.
“vai passar. não superamos os medos, sucumbimos na segunda crise, desistimos de insistir. somos fracos, somos influenciáveis, somos tolos. foi muita incompetência de nossa parte. não seremos inesquecíveis. vai passar.”
(Rafael Martins)
eu não vim falar de amor,
nem dizer que o destino foi quem nos juntou.
eu não prometi cuidar e nem prometo agora,
embora eu vá olhar com ternura pras tuas crias e pra caneca com chá.
não peço pra namorar.
você riria.
e eu morreria.
sem ar.
eu não vim pedir amor,
nem me dei por vencido.
cê sabe como é,
sou teimoso de dar dó!
só vim para dizer: no meu sertão não será sol.
só vim para dizer: no meu sertão não será sol.
e vai chover.
e vai chover.
sabe,
o meu amor é teu.
não sei o que aconteceu,
nem sei no que vai dar.
sabe,
só quero um beijo teu.
e que não diga adeus,
para que eu possa voltar.
e eu voltarei!
margaridas na mão, venho armado até os dentes.
pra roubar teu coração
e colocá-lo rente ao meu.
sabe,
antes de terminar,
minha moça, eu te digo:
você vai ser feliz comigo.
mesmo se o mundo acabar,
mesmo se o avião cair.
mesmo se a chuva alagar aqui,
mesmo se a gente afogar.
e eu não vim falar de amor,
nem dizer que o destino foi quem nos juntou.
eu não prometi cuidar e nem prometo agora,
embora eu vá olhar com ternura pras tuas crias e pra caneca com chá.
não peço pra namorar,
você riria.
e eu morreria…
estranho é não conseguir dormir direito a noite e a cada hora que acordava vinha um turbilhão de pensamentos. era esperado que isso tudo não passasse de um final de semana, e só de ter acontecido esse final de semana já foi muito bom. como eu já falei: ‘não sou de desistir, não gosto de desistir’. eu não estou desistindo, ainda acho que dá tempo de fazer as pessoas mudarem de ideia e fazer esse sentimento reaparecer. mas e se eu não conseguir? a gente segue em frente. mas sabe quando você acha que isso não vai acontecer com mais ninguém? parece que você depositou todo esse amor, que com o tempo já deixou de ser amor, em uma unica pessoa. passo esses dias acreditando que ainda não está nada certo. e se estiver a gente aceita, mas não desiste.
(Rafael Martins)
não sou de desistir, não gosto de desistir. lutarei pelo que acho que vale a pena. essa tentativa da gente ser feliz, juntos, é o que vale a pena. a duvida que sente hoje pode ser uma grande certeza amanha, ou depois. a tentativa pode trazer um grande bem nós dois.
(Rafael Martins)
se um dia nois se gostasse
se um dia nois se queresse
se nois dois se empareasse
se juntim nois dois vivesse
se juntim nois dois morasse
se juntim nois dois drumisse
se juntim nois dois morresse
se pro céu nois assubisse
mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
e se eu me arriminasse
e tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
e a minha faca puxasse
e o bucho do céu furasse
tarvês que nois dois ficasse
tarvês que nois dois caisse
e o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse
(Zé da Luz)
coração tem que ser feito.
já tenho uma porção
me infernizando o peito.
com isso ninguém nasça.
coração é coisa rara,
coisa que a gente acha.
e é melhor encher a cara.
(Paulo Leminski)
não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário. alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. se achar que precisa voltar, volte! se perceber que precisa seguir, siga! se estiver tudo errado, comece novamente. se estiver tudo certo, continue. se sentir saudades, mate-a. se perder um amor, não se perca! se o achar, segure-o!
(Fernando Pessoa)